Páginas

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Música não tem data de validade...

Apresentação do Trio Trovatori dell'Anima

          É comum que o mercado de música e a música de mercado façam esforço para colocar as coisas no seu devido lugar. Logo, compositores e interpretes são distribuídos em prateleiras ideológicas e recebem rótulos que definem quem são seus consumidores. Evidentemente, e as vezes infelizmente, o público age de acordo com essas determinações, mas raramente reage. Qualquer música dita diferente, porque sua ocorrência é menor nos grandes meios de comunicação, encontra dificuldades não só para conseguir patrocínios e financiamentos, mas também para conquistar a apreciação de um público mais diversificado. Gêneros como jazz, música clássica e música instrumental brasileira ainda sofrem pela noção equivocada de que são produzidos para público especializado e bem informado sobre os meandros e história dessas composições, o que é corroborado por parte dos músicos que se dedicam a eles. Particularmente, não morro de amores por essa ideia. Quando o público especializado comparece em minhas apresentações, fico muito feliz, mas meu desejo sempre foi levar música para qualquer pessoa. Os puristas hão de me perdoar: sou um educador e nada tenho contra informação,  mas me recuso a aceitar que a verdadeira apreciação musical é aquela que se dá aliada à informação. Digo que esta é no máximo mais completa, mas uma obra de arte pode ser apreciada sem nenhum tipo de aviso prévio.
          Quando o caso é música clássica, o panorama se agrava um pouco mais. Não raro, quem pratica essa música esbarra em três problemas:
          1) Ela é vista como música de outra época.
          2) É considerada música elitista.
          3) Os concertos são tachados de chatos, pois é preciso ouvir em silêncio, sentado numa cadeira e só aplaudir no final.
          Vamos aos pontos:
          Música composta em outras épocas, mas tocada agora. Arte não tem data de validade e por isso o minucioso trabalho dos restauradores em artes visuais é tão importante. O significado de um quadro, um afresco ou uma escultura antigos continua vivo, o que envelhece são os materiais. Neste sentido a música leva vantagem, pois cada vez que uma obra de outra época é tocada ela vive em nosso tempo, recebe o tratamento, o frescor e a interpretação de pessoas de nossa época, se torna música do agora. Por outro lado, essa música da tradição clássica continua sendo composta, e muito bem, nos dias de hoje.
          Não concordo que elitista seja mesmo adjetivo da música clássica. É verdade que ingressos em salas de concerto e teatros não são sempre acessíveis (existem muitos programas oferecidos com preços pequenos) mas qualquer artista pop internacional vem fazer shows em nosso país com preços altíssimos e os  nacionais não ficam atrás.
          Sim, música clássica tem que ser ouvida em silêncio e sentado, faz parte do evento. Seria muito estranho ir a um show de rock e não se deparar com centenas de cabeludos sacudindo suas madeixas, ir ao samba e não dançar, ou ir ao show de jazz e não aplaudir os bons improvisos logo ao final deles.

              E o que dizer então de artistas brasileiros que se dedicam à música do renascimento e do início do barroco? A resposta é muito simples. Antes de ser desta ou daquela época, deste ou daquele país, é música e muito boa! Fui à apresentação do Trio Trovatore dell'Anima ontem, dia 16 de agosto de 2012, no aconchegante e intimista ambiente do Casarão do Belveder e fiquei bastante satisfeito e feliz com a música que escutei por lá. O grupo é formado por Cecília Massa (Soprano), Arthur Raymundo (Tenor) e Diogo Rodrigues (Cordas dedilhadas: alaúde e guitarra barroca). No repertório, obras do Renascimento inglês (John Downland e Thomas Robinson), do barroco espanhol e italiano (Gaspar Sanz, Santiago de Murcia e Claudio Monteverdi) e modinhas brasileiras (Cândido Ignácio da Silva e Arthur Napoleão).
          Ora atuando em solo de soprano e acompanhamento, tenor  e acompanhamento, duas vozes e acompanhamento e ora em solos de guitarra barroca, o grupo conduziu o público por uma sofisticada viagem no tempo, com um saboroso fundo histórico e o vigor de jovens músicos entusiasmados por sua arte. A escolha do repertório foi de notável bom gosto e a organização das músicas proporcionou aos ouvintes um leque variado de agradáveis momentos musicais. As vozes de Cecilia Massa e Arthur Raymundo são limpas, belas e expressivas e as sonoridades extraídas do alaúde e da guitarra barroca por Diogo Rodrigues são hipnóticas, solenes e precisas. O alto nível do resultado musical do grupo é fruto de muita dedicação individual e certamente de incontáveis horas de ensaio.
              É sempre muito bom apreciar pessoas fazendo música porque acreditam nela e os músicos do Trovatore dell'Anima são exemplos disso. A escolha da atuação artística desse grupo se deu por suas percepções e convicções e não por uma decisão corporativa. Quem esteve presente viu um grupo de  jovens músicos brasileiros, cujos rostos ainda nem apresentam marcas cunhadas pelo tempo, fazendo música antiga com amor e grande competência. Ou seja, nem o tempo consegue corroer o significado da boa música e ela está aí para ser ouvida por quem quiser!
               Em tempo, paguei R$15,00 no ingresso deste concerto. Música elitista? Concordo que os músicos que escutei nesta noite pertencem a uma elite musical, dado o alto nível de cada um deles. O valor do ingresso não tinha nada de elitista.








Nenhum comentário:

Postar um comentário